Durante anos habituei-me a ouvir algumas pessoas repetirem a mesma frase “ah és daqueles que me fazem comprar coisas de que não preciso”, quando lhes contava que era publicitário.
Na altura ocorria-me que devia ter mais critério a escolher com quem falava, e também que havia um Q de verdade no que diziam.
É óbvio que a publicidade não faz alguém comprar algo que não quer.
Pode mudar a cabeça dessa pessoa quanto à ideia de que não precisava daquilo, mas não a obriga a comprar.
Há uns anos, o director de marketing da Ford, dizia-nos na passagem do briefing para o lançamento do Focus, que o objectivo do nosso trabalho na agência não era vender o carro, era sim levar as pessoas até à porta do stand.
Para vender o carro, eles, na Ford, tinham nos stands profissionais mais competentes do que os publicitários.
Achei isto tão, mas tão inteligente, que dez anos depois ainda uso o exemplo, aqui e nas minhas aulas sobre o papel da publicidade.
Fui, então, crescendo (em experiência e volume) convencido de que persuadir era uma coisa, decidir pelas pessoas, agir pelos consumidores, era outra.
Até há 10 minutos, este era o meu mundo e estava disponível a combater por ele em qualquer discussão relacionada com o tema.
Mas, entretanto, a notícia do lançamento do novo browser da OpenAI, Atlas de seu nome, levou-me à página da marca e ao vídeo de lançamento do mesmo…
O spot é fraco.
Uma espécie de tutorial, onde acharam que bastava dar-lhe o look dos anúncios (brilhantes) da Google para ter um bom anúncio.
O design do browser e da página que lhe dá suporte também não é original, uma vez que, aí, vão buscar “inspiração” à Apple.
E o que fez então mudar uma das minhas mais profundas convicções?
O frame reproduzido na imagem, e que pode ser visto entre o 1 minuto e 01 segundo e o 1 minuto e 25 segundos do vídeo partilhado no link, e que promove o referido Atlas.
Nestes 24 segundos está o princípio do fim.
O fim dos compradores compulsivos (como eu), mas também dos indecisos, dos calões, dos que deixam tudo para a última, dos maridos nas vésperas de aniversário de casamento, … da sociedade de consumo em geral.
De hoje em diante, a publicidade continua a não conseguir “fazer” com que alguém compre o que não quer. Mas o browser pode ajudar.
O Google matou a dúvida e a busca.
Tudo ficou ao alcance dos nossos braços (com um telemóvel na mão, claro) e nunca mais ninguém foi para casa/escritório/escola/laboratório a pensar no que um amigo disse. As respostas estão todas na net, mas ainda era preciso procurar.
Agora o Atlas, acaba de assassinar a acção.
E não têm vergonha alguma em assumí-lo de forma evidente e bem clara na frase “Takes action for you”.
Se o ChatGPT já fazia 2/3 do teu trabalho e muito em breve vai ser possível dispensar-te da empresa, agora também faz as compras por ti.
Claro que é muito educado e ainda te vai perguntar, como o senhor do café da esquina, se é “o do costume”.
Até o costume ser não ter de te perguntar, porque aceitaste os “termos e condições” e já não é preciso.
Takes action for you é a promessa.
Rapaziada com o cartão de crédito registado na digital wallet, preparem-se. Vêm aí contas surpreendentes.
Eu (que sou um comprador compulsivo) já instalei no meu computador.

O Atlas está aqui:
https://chatgpt.com/atlas/get-started/
O filme aqui:
E o spot onde o chatGPT foi buscar inspiração, aqui:
